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Nutrição: uma importante aliada para o tratamento da Aids

A luta contra o HIV já mudou de cara ao longo da história. Nos anos 80, quando apareceram os primeiros casos em humanos, não havia tratamento para a doença, e milhões de pessoas foram vitimadas pela AIDS. Segundo a UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) cerca de 35 milhões de infectados pelo vírus morreram por doenças oportunistas que se aproveitam da imunodeficiência. É um número que assusta. Mas, essa realidade mudou, porque, com os avanços da medicina, já é possível conviver normalmente com a infecção. Ainda de acordo com a UNAIDS, em 2017, 36,9 milhões de pessoas viviam com o HIV, e, dessas, 21,7 milhões tinham acesso à terapia com retrovirais.

A grande questão do nosso tempo é expandir o tratamento e acabar com o preconceito e a discriminação que ainda fazem com que muitos não procurem a intervenção médica, nem façam o exame de rotina, responsável pela prevenção da doença e pelo diagnóstico precoce.

O primeiro dia de dezembro é celebrado como o Dia Mundial contra AIDS. A data se originou durante a Cúpula Mundial de Ministros da Saúde sobre Programas de Prevenção à AIDS, em 1988 e vem articulando, nesses 30 anos, ações no mundo todo com o fim de acabar com a contaminação pelo vírus e promover o acesso ao tratamento. Como extensão ao dia, foi criado o Dezembro Vermelho, que reserva o último mês do ano à luta contra a epidemia.

E nesse processo de controle da doença, a alimentação é uma aliada fundamental. Em entrevista ao CRN-9, Sandra Matta, nutricionista que pesquisou por mais de 5 anos HIV e hoje atua no Centro de Oncologia Integrativa e Prevenção e no Centro de Medicina Integrativa em Síndromes Genéticas, em São Paulo, fala sobre as relações da nutrição com a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, esclarecendo pontos relevantes sobre doença.

 

1) Por que a alimentação é uma grande aliada no tratamento do paciente HIV+?

A alimentação é “A” grande aliada no tratamento de qualquer doença e não apenas no HIV+. Hoje temos conhecimento de como os nutrientes dos alimentos podem agir melhorando a imunidade e auxiliando na redução da inflamação causada pelo vírus.

2) O tratamento medicamentoso pode desencadear alguns sintomas. Quais são esses sintomas e como a alimentação pode auxiliar a atenuá-los?

Os efeitos adversos das medicações hoje utilizadas no HIV/AIDS são muito menores e as vezes até inexistentes, quando comparados aos primeiros esquemas de antirretrovirais. Antigamente, com o uso do AZT, havia muitos pacientes com lipodistrofia (conjunto de alterações que ocorrem na distribuição da gordura subcutânea) e um controle muito difícil do colesterol e dos triglicérides. Já hoje em dia, com as novas drogas, a lipodistrofia é bem mais difícil de acontecer e, de forma geral, o controle do metabolismo lipídico do paciente se tornou mais eficiente e bom respondedor a dietas equilibradas. Dietas que priorizam proteínas magras, gorduras de boa qualidade, evitando a ingestão de doces e carboidratos refinados e, geralmente, consumindo carboidratos de baixo índice glicêmico.

3) A AIDS pode se manifestar em diferentes graus, com sintomas que podem variar, para cada manifestação.  Em cada uma dessas ocorrências, se faz necessário um tipo específico de alimento?

Não. O melhor raciocínio para esta pergunta é pensar no seguinte ponto: como o vírus do HIV age em nosso corpo? De uma forma bem resumida, ele age “enganando” o nosso sistema imunológico, multiplicando-se velozmente e, desta forma, reduzindo a força de defesa do nosso sistema imune. Diante desta realidade, o que podemos pensar, em termos de alimentos, para nos auxiliar no tratamento? O ideal é utilizar alimentos que contenham nutrientes que melhorem a nossa imunidade e/ou reduzem a ação da cascata inflamatória. Entre estes alimentos, temos os brócolis e sua família (chamada de brássicas ou crucíferas), que entre os seus compostos podemos destacar sulforafano, que entre suas funções, é um indutor de glutamina S-transferases (GSTs) e outras enzimas citoprotetoras, melhorando a transcrição de diversos genes, como por exemplo o GSTT1, e assim auxiliando na melhora da imunidade do paciente com HIV+/AIDS.

4) Impossível falar da AIDS sem falar de preconceito. Como foi seu relacionamento com os pacientes? Ainda há estigma?

Foi excelente! Um aprendizado de humildade para a vida toda, me mostrando a fragilidade e temporalidade de nós, seres humanos, neste planeta! Fiquei praticamente 5 anos no ambulatório de HIV do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, chefiado pelo infectologista professor Dr. Jorge Casseb. Era um grupo multidisciplinar que além de nutricionistas e médicos infectologistas, integrava enfermeiras, psicólogos, terapeutas ocupacionais e voluntárias, em um conjunto rico, com garra para ajudar e para pesquisar. Os pacientes deste grupo recebiam e tomavam a medicação corretamente, vinham com frequência ao ambulatório para ter o suporte de todos os profissionais, e mantinham uma vida praticamente normal. Sempre houve um acolhimento muito eficiente para todos estes pacientes, que formavam mais de 500 pessoas. Também fiquei durante 3 anos com o Grupo de Neurociências do Instituto de Infectologia Emilio Ribas, chefiado pelo neurologista professor Dr. Augusto Penalva e com a coordenação da Rosa Marcusso. Os pacientes deste grupo eram mais heterogêneos, alguns mais graves, e, como muitos deles já apresentavam algum nível de demência do HIV (os pacientes HIV+, apresentam uma demência específica relacionada ao vírus), fazer o tratamento medicamentoso e administrar a alimentação só era possível com o auxílio de cuidadores. Sobre o estigma, entre os profissionais com os quais tive e tenho contato, não há, mas, entre os próprios pacientes e seus familiares, isso ainda é presente. Infelizmente.

5) Qual a dieta mais equilibrada, que responde à maior parte dos pacientes com HIV? Como os nutrientes agem no organismo desses pacientes?

A dieta mais equilibrada ainda é a melhor dieta que o paciente conseguir comprar e fazer com a menor quantidade possível de alimentos ultraprocessados. Em linhas gerais, uma dieta do mediterrâneo pode ser um bom suporte inicial, até que se encontre e entenda as necessidades específicas do paciente, possibilitando individualizar o cardápio e o seu tratamento nutricional. Devemos ter atenção para que este paciente coma a maior quantidade possível de alimentos in natura, evitando os industrializados. Se puder consumir alimentos orgânicos, melhor ainda. É só abrir os jornais para ler como os agrotóxicos estão comprometendo a saúde das populações. Existe um lema na nutrição que faz um bom resumo disso: “Vamos desembalar menos e descascar mais! ”. Vamos voltar a comprar nossos alimentos na feira. De preferência orgânica!

6) As pesquisas têm mostrado novos caminhos na relação entre Nutrição e AIDS? Quais são esses caminhos?

Na minha opinião, a nutrição é a ciência da saúde que mais vai trazer novidades nos próximos anos e não apenas no HIV+/AIDS, mas para todas as doenças. Com o advento das novas tecnologias, podemos entender e as vezes conhecer pela primeira vez o funcionamento real de vários nutrientes no nosso organismo e como eles agem nos nossos genes. Nesse processo, com certeza, a nutrição passará a ter um papel mais central do que atualmente, nas mais diversas enfermidades. Vamos lembrar que esta relação não se passa apenas nos nossos genes, no metabolismo do nosso sistema imune, na interação alimento-drogas e no vírus HIV. Isso também se dá na interface entre todos estes pontos citados e os nossos vários microbiomas! A tecnologia, na área da saúde, veio para ficar. Hoje temos muito conhecimento sobre o corpo humano, sobre as causas da doença e sobre os alimentos. Cabe a cada um de nós, profissionais, fazer um uso ético e comprometido da relação de todas essas informações com a saúde dos nossos pacientes. Trabalhando e estudando com este foco, todos os pacientes – não apenas os HIV+/AIDS – serão beneficiados com uma nutrição mais comprometida e personalizada para os diversos tratamentos, das mais variadas doenças.