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Novembro Azul: quebra de paradigmas para a saúde masculina

Desde 2003, novembro nos chega com um tom diferente, com uma luta especial: a defesa do tratamento e da prevenção do câncer de próstata. A partir de então, chamamos o mês de “Novembro Azul”. O movimento começou na Austrália e repercutiu em vários países. No Brasil, muitas ações são promovidas por empresas, instituições e com adesão de pessoas influentes, em prol da divulgação da causa. A ideia central é conscientizar os homens sobre a necessidade de realização precoce do exame de toque, responsável por detectar a doença.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), manter uma alimentação equilibrada é essencial para a prevenção de alguns tipos de câncer. Aliada à importância da Nutrição, está a prática de atividades físicas. As mudanças de hábitos devem ir além do ato de comer e se exercitar fisicamente, mas focadas nos exames diagnóstico. Estes devem ser realizados a partir dos 50 anos de idade, mas quando o homem tem parentes de 1º grau com Câncer de Próstata, é indicado realizá-los a partir dos 45 anos de idade.

Investigando a fundo esse universo em que Oncologia e Nutrição se misturam, Eduarda Marinho, nutricionista com especialização em oncologia, traçou grande parte do seu percurso profissional inserida nessa temática.

Em entrevista, ela nos conta sobre sua trajetória, e sobre as questões relacionadas à pesquisa, prevenção e tratamento de cânceres.

Estamos no Novembro Azul. Qual é o grande mérito dessa campanha?

O Novembro Azul surgiu como uma campanha de prevenção do câncer de próstata, uma vez que é a neoplasia que mais acomete os homens – depois do câncer de pele não melanoma. Atualmente, nossas ações são voltadas para promover a saúde do homem em geral, incentivando a prevenção primária e secundária de doenças e agravos crônicos não transmissíveis. Acredito que o grande mérito dessa campanha seja quebrar paradigmas em relação à procura do homem por serviços de saúde.

O que há de novo na Nutrição relacionado à prevenção do câncer de próstata?

Há evidências científicas indicando que o excesso de peso aumenta o risco da doença. Ainda existem algumas indefinições sobre o papel da alimentação na prevenção do câncer de próstata, entretanto, deve-se manter hábitos alimentares saudáveis, com base em alimentos in natura e minimamente processados, por exemplo: hortaliças, frutas, leguminosas, oleaginosas e outras sementes e cereais integrais. O consumo excessivo de leite e derivados e cálcio (através de alimentos ou suplementos) pode aumentar o risco da doença, mas as evidências ainda são limitadas. É improvável que o consumo de beta-caroteno (na dieta ou como suplemento) tenha efeito protetor para o câncer de próstata.

Como é o tratamento do câncer de próstata?

Em fases iniciais, podem ser indicados vigilância ativa, cirurgia e radioterapia associada ou não a hormonioterapia. Quando a doença se encontra em fase avançada, pode-se considerar também a quimioterapia.

Quais são os principais desafios que uma pessoa que descobre o câncer de próstata vai encontrar pela frente?

Devido ao estigma cultural da palavra “câncer”, os pacientes tendem a apresentar medo do desconhecido, o que acomete também seus familiares. A equipe multiprofissional deve auxiliar no enfrentamento da doença, esclarecendo as dúvidas quanto ao tratamento e dando todo o apoio necessário. É importante frisar que o câncer de próstata tem grandes chances de cura, especialmente se for detectado em estágios iniciais. Após o diagnóstico, a conduta médica é definida de forma individualizada, a depender das condições clínicas do paciente e do estadiamento da doença.

Pensando na relação da Nutrição com a Oncologia de um modo geral. Como a alimentação auxilia na prevenção e no tratamento do câncer? No caso do câncer de próstata tem alguma especificidade?

É sabido que uma alimentação equilibrada aliada à prática regular de exercícios físicos e manutenção do peso adequado podem prevenir 1/3 dos cânceres. A obesidade está relacionada a 13 tipos de câncer, entre eles o de próstata avançado. Em geral, a alimentação deve ser baseada em alimentos in natura e minimamente processados, como hortaliças pobres em amido, frutas, cereais integrais, leguminosas, castanhas oleaginosas e outras sementes, leite e derivados, ovos e carnes brancas. Evite alimentos processados e principalmente ultraprocessados, pois, em geral, são nutricionalmente desbalanceados. Após o diagnóstico do câncer de próstata a recomendação é manter os hábitos de vida saudáveis, o que reflete positivamente na reabilitação, previne a recidiva da doença e até mesmo o desenvolvimento de outro tipo de câncer.

A partir de sua experiência acadêmica, como estão os avanços no tratamento do câncer? Parece haver um paradoxo: as pesquisas avançam e o número de casos também. É isso mesmo? Qual a razão disso?

Graças ao desenvolvimento de pesquisas, os tratamentos contra o câncer vêm evoluindo em ritmo acelerado, com aperfeiçoamento de técnicas cirúrgicas e radioterápicas, inserção de novas drogas e adaptação de esquemas terapêuticos, aumentando a sobrevida dos pacientes e proporcionando melhor qualidade de vida após o diagnóstico. Segundo o INCA, para 2019 são esperados 600 mil novos casos de câncer no Brasil, 4.000 a mais que no ano de 2017. Cerca de 90% dos eventos são decorrentes de fatores ambientais, e não hereditários. O aumento da incidência de câncer está relacionado a transições demográficas e epidemiológicas e a hábitos de vida inadequados – má alimentação, excesso de peso, sedentarismo, tabagismo, consumo de bebida alcoólica, comportamento sexual de risco, fatores ocupacionais, exposição à radiação solar sem proteção, entre outros. O maior acesso aos serviços de diagnóstico também aumenta a notificação de casos. Educar a população quanto à prevenção é extremamente necessário, uma vez que 30 a 50% dos cânceres são evitáveis.

Além do Hospital do Câncer em Uberlândia, você também trabalha em uma ONG. Como é a sua atuação nessa instituição.

O Grupo Luta Pela Vida (GLPV) foi criado em 1996 para construir e equipar o Hospital do Câncer em Uberlândia – que é, na verdade, o Setor de Oncologia do Hospital de Clínicas da UFU. Hoje oferece, juntamente com o SUS, tratamento gratuito e de qualidade a pacientes de Uberlândia e mais oitenta cidades da região. O GLPV investe as doações da população e empresas em diversas frentes, como: quadro de profissionais, aquisição de novos equipamentos, ampliação da estrutura física, pesquisa e prevenção de câncer e apoio material e psicossocial a pacientes e familiares. Contamos com mais de 500 voluntários que contribuem com a humanização da atenção dentro e fora do Hospital. Em 2017, contávamos com 7.500 pacientes em atendimento, sendo 3.534 novos casos.