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Nutrição e Oncologia: a necessidade um olhar diferenciado para o paciente

De acordo com informações do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), o câncer representa a segunda causa de morte no Brasil, com cerca de 200 mil óbitos por ano. A estimativa é que em 2017 houve aproximadamente 600 mil novos casos desse grupo de doenças no país. Os números são alarmantes e evidenciam a importância da prevenção, considerando a combinação de três fatores: alimentação saudável, prática regular de atividade física e peso corporal adequado.

A receita parece ser fácil de ser seguida, no entanto, ainda observamos muitos mitos em torno da relação entre a Nutrição e a Oncologia, um terreno fértil para ser explorado, o qual exige mais pesquisas e evidências científicas para validar a atuação de alguns alimentos no organismo, desde a prevenção até o tratamento do paciente. Mais que isso, o profissional que trabalha com este tema, principalmente o nutricionista, precisar ter uma presença diferenciada, respeitando a individualidade bioquímica e história de vida do indivíduo com câncer.

É neste contexto, que Janise Vilete se encontrou na Nutrição. Hoje, ela atua como nutricionista clínica de um grande hospital de Belo Horizonte, mas a sua trajetória profissional passa por uma especialização em Atendimento ao Paciente Oncológico, pela Residência Multiprofissional na Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Conheça mais sobre o trabalho de Janise e a sua atuação junto ao paciente oncológico.

Por que escolheu ser nutricionista?

A paixão pela Nutrição começou cedo, durante as aulas de Biologia, na sétima série. Eu fiz um trabalho sobre alimentos, gostei do tema e fui pesquisar uma profissão que tivesse relação com esse assunto. Desde então, sempre soube qual curso queria fazer, até ingressar na Universidade Federal de Viçosa (UFV). Foi no estágio na área de nutrição clínica que optei por fazer a Residência Multiprofissional.

Como a temática da Oncologia entrou na sua vida?

 Na verdade, foi por uma questão pessoal, relacionada à minha avó, que estava em cuidado paliativo domiciliar. Foi naquele momento que senti a necessidade de aprender mais sobre o câncer. E a Residência me proporcionou isso, já que eu tinha 12 horas   teórico-práticas diárias com questões relacionadas à saúde.

O que a Residência representa para a sua atuação como nutricionista?

Foi uma oportunidade única. No primeiro ano, conhecemos a rede de atenção à saúde no Sistema Único de Saúde (SUS) de Uberlândia. Trabalhei em diversos lugares e pude contribuir para o fortalecimento do trabalho da atenção primária. No segundo ano, estudamos a Oncologia de uma forma diferenciada: além das aulas de residência, assistimos a aulas sobre farmacologia e tínhamos estudos de casos junto com os médicos residentes de cancerologia. Outro ponto que merece destaque é a troca de experiências com outros profissionais, envolvendo dentistas, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, entre outros. Destaco tudo isso como um momento importante para a minha carreira.

Como é o seu trabalho hoje?

Enquanto nutricionista clínica hospitalar, realizo atendimento ao paciente internado, muitos com cuidados paliativos. Realizo triagens do estado nutricional, aplico um protocolo de assistência nutricional e o serviço de quimioterapia ambulatorial, conforme o chamado da equipe médica ou de enfermagem.

Avalio que me capacitei para lidar com diversos tipos de pacientes, principalmente os oncológicos, considerando aspectos psicológicos, sociais e familiares.

Como a Nutrição contribui para a prevenção de vários tipos de câncer?

É preciso cautela quando falamos sobre a relação da alimentação com alguns tipos de câncer, tendo em vista que o alimento é um elemento complexo. Na verdade, é preciso considerar uma soma de fatores, como a combinação entre Nutrição e atividade física para a prevenção de alguns tipos da doença. Pesquisas já evidenciam que o excesso de peso pode colaborar para o câncer de mama em mulheres pós menopausa, próstata avançado e câncer de mama em homens, algo que é muito pouco falado. É importante destacar uma alimentação preventiva: diminuir o consumo de alimentos ultraprocessados, ingerir mais alimentos da estação, a fim de minimizar a ingestão de agrotóxicos, aumentar consumo de fibras.

Quais posturas preventivas a pessoa pode adotar para prevenir o câncer de mama?

Se manter dentro da faixa de peso ideal, aumentar o consumo de fibras, evitar o tabagismo e reduzir ou não consumir bebidas alcoólicas são dicas essenciais. Por meio de alimentação adequada e atividade física, é possível diminuir em até 28% do risco de câncer de mama, apontam estudos. É preciso buscar mais qualidade de vida, antes da evidência de qualquer sintoma.

Quais avanços você acredita que já ocorreram nas pesquisas ou tratamentos relacionados à Nutrição e à Oncologia?

Temos muitos avanços, mas ainda existem muitos mitos sobre o tema. Algumas vezes, certo estudo foca somente em um determinado nutriente e extrapolar esse resultado é difícil. É importante diversificar essas fontes de informação e abordagens. Este bem estabelecido, por exemplo, que nutrientes antioxidantes, exercem importante papel preventivo, como resveratrol, licopeno, além de vitaminas e minerais que também são envolvidos no processo. A suplementação pode ser uma alternativa interessante, desde que haja acompanhamento profissional junto ao paciente.

Qual deve ser o perfil do nutricionista que vai trabalhar com Oncologia?

É preciso ter muita empatia e ser racional ao mesmo tempo. É difícil lidar com este tema, precisamos estudar muito.  Tratar um paciente oncológico é um desafio diário, no qual a alimentação pode influenciar na qualidade de vida da pessoa.

A alimentação tem um papel social na vida de todos. Preciso trabalhar os alimentos de uma forma que o paciente se adeque, além de avaliar a possibilidade de substituições. O paciente está inserido em um contexto sóciocultural, portanto, preciso aprender a pensa-lo como um todo, não somente no lado nutricional. É fundamental sempre dialogar com outras áreas e envolver a família no processo do tratamento.

Imagens: Nathalia Gorito (Zoom Comunicação) e Arquivo Pessoal