Nenhum comentário

Obesidade como fator de risco em pacientes com COVID-19

Rafaela Corrêa Pereira, Engenheira de Alimentos, Doutora em Ciência dos Alimentos (UFLA), Mestranda em Nutrição e Saúde (UFLA), Professora IFMG – Campus Bambuí-MG

Juciane de Abreu Ribeiro Pereira, Nutricionista (CRN-9 1607), Mestre em química, físico-química e bioquímica dos alimentos (UFLA) e Doutora em Ciências (UFLA), Professora Adjunta III, Departamento de Nutrição (UFLA)

Andrezza Fernanda Santiago, Nutricionista (CRN-9 3310), Mestre em Bioquímica e Imunologia e Doutora em Ciências, área de concentração Imunologia (UFMG), Professora Adjunta II, Departamento de Nutrição (UFLA)

Michel Cardoso de Angelis Pereira, Nutricionista (CRN-9 2047), Mestre em química, físico-química e bioquímica dos alimentos (UFLA) e Doutor em Ciências (UFLA), Professor Associado II, Departamento de Nutrição (UFLA)

 

A infecção pelo novo coronavírus (COVID-19, causada pelo SARS-CoV-2) pode causar desde resfriado comum até doenças mais graves, e, por se tratar de uma doença nova, os fatores de risco relacionados às condições críticas têm sido alvo de extensa pesquisa.

Com base nas informações disponíveis até o momento, são considerados como população de risco para agravamento da doença os idosos e pessoas de qualquer idade com condições clínicas subjacentes, como diabetes, doenças cardiovasculares, respiratórias e renal (1). Entretanto, outros potenciais fatores de risco, têm sido investigados.

Cada vez mais os estudos apontam a obesidade como fator de risco para o agravamento da COVID-19, mostrando relação com complicações, necessidade de admissão hospitalar e de cuidados intensivos. Ao analisar as estatísticas disponibilizadas por diferentes instituições de saúde ao redor do mundo, isso fica ainda mais evidente.

Em um estudo com profissionais de saúde chineses, com idade entre 21 e 59 anos contaminados com SARS-CoV-2, o IMC médio foi 22,7% maior no grupo que desenvolveu complicações da doença (27,0 ± 2,5 Kg/m² [grupo crítico] versus 22,0 ± 1,3 Kg/m² [grupo geral]) (2). Outro estudo realizado na França, mostrou que a necessidade de ventilação mecânica e de internação em unidade de cuidados intensivos em pacientes com COVID-19 foi 7 vezes maior naqueles com IMC acima de 35 Kg/m² em comparação aos indivíduos com IMC inferior a 25 Kg/m² (3). Nos Estados Unidos, dados de um hospital de Nova York mostraram que 21% dos pacientes com COVID-19, com menos de 60 anos, tinham IMC entre 30 – 34 Kg/m² e 15%, acima de 35 Kg/m². Estimou-se também que, para esses pacientes, havia 1,8 a 3,6 vezes mais chances de serem encaminhados para unidade de tratamento intensivo (4). Outros pesquisadores defendem ainda que a crescente prevalência de obesidade ao redor do mundo e a experiência anterior do impacto da obesidade na mortalidade por influenza H1N1 deveriam ser levados em consideração na abordagem de pacientes com obesidade e COVID‐19 (5).

Assim, apesar dos estudos ainda serem limitados, principalmente pela carência de dados antropométricos de pacientes com COVID-19, as evidências disponíveis até o momento indicam que a obesidade desempenha papel importante na patogênese da infecção pelo novo coronavírus devido a vários fatores (1):

  • Pela resposta imunológica (inata e adquirida) comprometida em virtude da inflamação do tecido adiposo induzida pela obesidade, tornando o indivíduo obeso mais vulnerável à doença.
  • Pela relação da obesidade com outras disfunções metabólicas (dislipidemia, resistência à insulina, diabetes tipo 2, hipertensão arterial e DCV) que também se configuram como condições de risco.
  • Pelo impacto da obesidade nas funções cardiovasculares e respiratórias.
  • Por analogia com outras doenças respiratórias infecciosas, como a H1N1, pela possibilidade de indivíduos sintomáticos com obesidade aumentar a disseminação do vírus em comparação com indivíduos sintomáticos não obesos, prolongando assim o tempo de disseminação do vírus para a população.

O comprometimento do sistema imunológico em indivíduos com obesidade é bem estabelecido pela literatura científica. Isso se deve à relação entre obesidade e alterações endócrino-metabólicas, aumento de moléculas pró-inflamatórias (adipocitocinas e adipocinas) e redução de moléculas anti-inflamatórias (adiponectinas), configurando um estado inflamatório crônico de baixa intensidade. A inflamação subclínica crônica associada à obesidade tem impacto em diversas funções corporais, como resposta imunológica, sensibilidade à insulina, pressão arterial e angiogênese, e está associada ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (6). Sabe-se ainda que a obesidade pode aumentar o risco de trombose, o que é relevante, dada a associação entre condições severas de COVID-19 e coagulação intravascular disseminada e tromboembolismo venoso (7). Esse conjunto de alterações endócrinas, imunológicas e metabólicas tornam os indivíduos obesos potencialmente vulneráveis ao desenvolvimento de complicações advindas da infecção por coronavírus.

Estudos demonstram ainda que a obesidade está associada à diminuição do volume de reserva expiratório, ao comprometimento da capacidade funcional do sistema respiratório e à complacência pulmonar. Em pacientes com obesidade abdominal, a função pulmonar é ainda mais comprometida pela diminuição da excursão diafragmática, dificultando a ventilação (5). Além disso, o aumento da adiposidade pode prejudicar o microambiente pulmonar, em que a patogênese viral e o tráfego de células imunes podem contribuir para um ciclo desadaptativo de inflamação local e indução de lesões secundárias (8).

Em um estudo recente foi mostrado também que o SARS-CoV-2 possui alta afinidade pela enzima de conversão da angiotensina 2 humana (ACE2), responsável por codificar uma proteína à qual o vírus se conecta para infectar as células pulmonares. O nível de expressão dessa enzima no tecido adiposo é superior ao do tecido pulmonar, um dos principais tecidos acometidos pelo novo coronavírus, sugerindo que o tecido adiposo também pode ser afetado. Como indivíduos obesos têm mais tecido adiposo e, portanto, número aumentado de células que expressam ACE2, esses pacientes podem ter quantidade maior de células afetadas pelo SARS-CoV-2 e, consequentemente, maior risco de desenvolver quadro mais severo da doença (9).

De fato, existem muitas evidências demonstrando que o tecido adiposo pode servir como reservatório de adenovírus humano Ad‐36, vírus influenza A, HIV, citomegalovírus, Trypanosoma gondii e Mycobacterium tuberculosis. Por analogia, o SARS-CoV-2 também poderia infectar o tecido adiposo e depois se espalhar para outros órgãos, o que pode explicar a possibilidade de indivíduos com obesidade prolongar a disseminação do vírus em comparação com indivíduos não obesos e desenvolver quadro mais severo da doença (1, 10).

Portanto, embora os efeitos do COVID‐19 em pacientes com obesidade ainda não tenham sido descritos com precisão até o momento, é importante considerar esta população como parte do grupo de risco para agravamento da doença, exigindo ações apropriadas de prevenção, além de cautela e cuidados específicos na abordagem desses pacientes.


Referências

  1. Kassir R. Risk of COVID-19 for patients with obesity [published online ahead of print, 2020 Apr 13]. Obes Rev. 2020;10.1111/obr.13034. doi:10.1111/obr.13034.
  2. Liu M, He P, Liu HG, et al. Clinical characteristics of 30 medical workers infected with new coronavirus pneumonia. Zhonghua Jie He He Hu Xi Za Zhi. 2020;43:E016.
  3. Simonnet, A., Chetboun, M., Poissy, J., Raverdy, V., Noulette, J., Duhamel, A., Labreuche, J., Mathieu, D., Pattou, F., Jourdain, M. and (2020), High prevalence of obesity in severe acute respiratory syndrome coronavirus‐2 (SARS‐CoV‐2) requiring invasive mechanical ventilation. Obesity. Accepted Author Manuscript. doi:10.1002/oby.22831.
  4. Lighter J, Phillips M, Hochman S, et al. Obesity in patients younger than 60 years is a risk factor for Covid-19 hospital admission [published online ahead of print, 2020 Apr 9]. Clin Infect Dis. 2020;ciaa415. doi:10.1093/cid/ciaa415
  5. Dietz W, Santos-Burgoa C. Obesity and its Implications for COVID-19 Mortality [published online ahead of print, 2020 Apr 1]. Obesity (Silver Spring). 2020;10.1002/oby.22818. doi:10.1002/oby.22818
  6. Chait A, den Hartigh LJ. Adipose Tissue Distribution, Inflammation and Its Metabolic Consequences, Including Diabetes and Cardiovascular Disease. Front Cardiovasc Med. 2020;7:22. Published 2020 Feb 25. doi:10.3389/fcvm.2020.00022
  7. Sattar N, McInnes IB, McMurray JJV. Obesity a Risk Factor for Severe COVID-19 Infection: Multiple Potential Mechanisms [published online ahead of print, 2020 Apr 22]. Circulation. 2020;10.1161/CIRCULATIONAHA.120.047659. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.120.047659
  8. Carter SJ, Baranauskas MN, Fly AD. Considerations for obesity, vitamin D, and physical activity amidst the COVID-19 pandemic [published online ahead of print, 2020 Apr 16]. Obesity (Silver Spring). 2020;10.1002/oby.22838. doi:10.1002/oby.22838
  9. Jia X, Yin C, Lu S, et al. Two things about COVID‐19 might need attention. 2020;2020020315.
  10. Bourgeois C, Gorwood J, Barrail‐Tran A, et al. Specific biological features of adipose tissue, and their impact on HIV persistence. Frontiers in microbiology. 2019;10:2837.
  11. Ryan DH, Ravussin E, Heymsfield S. COVID 19 and the Patient with Obesity – The Editors Speak Out. Obesity (Silver Spring). 2020;28(5):847. doi:10.1002/oby.22808